O astrônomo amador e o efeito “wow!”

Muitas pessoas que conhecem algum astrônomo amador se perguntam o que leva alguém a ficar horas observando o céu, muitas vezes encarando baixas (ou altas) temperaturas, em posições desconfortáveis (quase sempre!), completamente no escuro (ou pior: sobre forte poluição luminosa) ou até mesmo se espremendo para conseguir extrair o melhor da janela de um pequeno apartamento (e ainda ganha fama de ficar espiando os vizinhos).

Talvez no fim desde post essas pessoas entendam um pouco melhor por que nós nos sujeitamos a esse tipo de coisa para ver uma “fumacinha” no céu. Talvez elas não entendam, mas tudo bem, não culpo elas, é realmente algo difícil de explicar.

Mas vamos lá. Desde criança sempre fui fascinado pelo Universo, mas vou pular essa parte, afinal qual criança não é fascinada pelo espaço e seus mistérios? Em vez disso vamos avançar alguns bons anos pra frente, no dia que em uma tarde entediado em um antigo trabalho o pequeno Douglas do passado viajou para o futuro, deu um tapa na minha nuca e me lembrou: “Ei, seu babaca, lembra daquele velho Atlas gigante que tinha um capítulo inteiro sobre o Sistema solar que a gente passava horas folheando? E o planetário que a gente adorava ir? Pois é, essas coisas ainda estão por ai, o Universo inteiro ainda está por ai”. E em meio a uma fumacinha de lógica ele desapareceu, provavelmente voltando para o passado, ou quem sabe indo fazer uma visita ao Douglas do futuro.

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Todos nós éramos essas criancinhas

O fato é que nessa mesma tarde eu redescobri a astronomia, não nego que foi uma tarde de trabalho bem improdutiva, mas foi nessa tarde que eu descobri que agora eu tinha condições de explorar o Universo, eu tinha duas vantagens que o Douglas do passado não tinha: Internet e um Salário. Com a internet eu comecei a estudar a ciência da astronomia e até um pouco de astrofísica, fiz cursos online, estudei o céu com mapas celestes, aprendi sobre telescópios e binóculos, e o mais importante: Conheci outros astrônomos amadores, o que, eventualmente, deu origem a esse grupo.

Com a internet eu adquiri conhecimento e contatos, e com os contatos mais conhecimento. Com o salário eu peguei todo esse conhecimento e dei o próximo passo para explorar o Universo e comprei meu primeiro equipamento, um simplório binóculo 7×50.

Depois de alguma espera, o binóculo chegou na minha casa, eu estava empolgadíssimo, mas na minha primeira noite de observação eu aprendi uma coisa nova, aprendi que uma maldição segue todo astrônomo que compra um equipamento novo e o céu ficou completamente fechado. Fiquei desapontado, mas não desisti, fiquei alguns minutos esperando abrir nem que fosse uma pequena clareira entre as nuvens para eu poder testar meu binóculo, e eis que minha espera foi recompensada. Uma lacuna se abriu entre as nuvens, mostrando o céu noturno amarelado de Salvador e aproveitei a oportunidade para apontar meu 7×50 para essa região. De cara não havia nada ali, mas com uma passada rápida eu descobri uma estrela, invisível a olho nú. Uma única estrela brilhava fraca naquela clareira entre as nuvens e junto com a estrela eu descobri o efeito “wow!” (não confundir com o sinal “wow!”). O fato de eu conseguir enxergar algo tão simples, porém inesperado, que até então era invisível para mim, fez com que eu tomasse um pequeno susto, seguido de um frio na barriga e um involuntário “wow!” vindo das minhas cordas vocais.

Essa sensação que descrevi acima é o chamado efeito “wow!”, e creio que seja compartilhada com todos os astrônomos. Desde então esse efeito se tornou uma constante na minha vida como astrônomo amador, sempre que descobria a fumacinha de uma nebulosa ou um aglomerado globular, ou passava horas caçando um objeto difuso e de repente lá estava ele na minha ocular, uma mera manchinha no céu noturno artificialmente iluminado e não favorável de Salvador, mas era suficiente para que o efeito “wow!” ocorresse.

Nós não vemos lindas imagens em Full-HD super coloridas, mas nós vemos coisas que estão em cima da cabeça de todos, estão bem ali esperando para serem descobertas, mas a maioria das pessoas nem sabem que essas coisas existem. Essa fumacinha que nós vemos, o que para alguns nada passa de uma fumacinha sem graça, para nós é o suficiente para que o efeito “wow!” ocorra, pois nós sabemos que ela contém todo um território completamente inexplorado, talvez essa fumacinha nem exista mais, estamos vendo apenas um fantasma que a muito pereceu e que apenas agora se revelou para nós, e é isso que nos faz ficar horas olhando para o céu, por mais que muitas vezes as condições não sejam favoráveis.

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Uma fumacinha? Não! M57, nebulosa planetária a cerca de 5.000 anos luz daqui que demorou cerca de 20.000 anos para ficar desse tamanho, restos de uma estrela que entrou em supernova. Foto: Turn Left At Orion

Como disse nosso amigo Dante no post que ele fez aqui no site “O excepcional no astrônomo amador é sua capacidade de se deslumbrar com eventos simples. Cada encontro com o céu é uma experiência inédita”.  É isso que eu acho belo na astronomia, ela é uma ciência que nos ensina humildade, que nos mostra que podemos apreciar pequenas coisas do dia-a-dia, nos desperta um lado explorador e a curiosodade.

Talvez um astronomo (amador ou não), seja apenas uma criança que tenha conseguido sobreviver a vida adulta, talvez as pessoas que mencionei no começo do texto, e que não entendem nossa fascinação pelo Universo, estejam apenas esperando seu Eu do passado lhe fazer uma visitinha.

Até a próxima e céus limpos!

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2 respostas em “O astrônomo amador e o efeito “wow!”

  1. Douglas, muito bom o seu texto. Não me lembro do meu momento de wow! mas certamente o tive. Vivi a infância durante a corrida espacial com um pai que adorava o assunto, o céu e caçar satélites. A astronomia esteve fortemente presente na minha vida por muitos anos. Deixei de “praticar” mas na era da internet me mantive sempre atualizado. Contente por estar neste grupo. Sds.

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  2. Pingback: Referências Para os iniciantes | GAAS

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